Blog do Mailson Ramos

Salvador, os ônibus e a [re]novação da frota

Renovação da frota de ônibus em Salvador

Renovação da frota de ônibus em Salvador – Crédito: Felipe Pessoa

 

Salvador, os ônibus e a [re]novação da frota

Salvador-Ba – Salvador é a capital da mudança estética; as alterações administrativas profundas não passaram de discurso político. Das pracinhas depredadas aos monumentos históricos, tudo tem sido reformado ou pelo menos adquirido novas cores. No espaço soteropolitano não se discute a administração de ACM Neto, prefeito desde janeiro de 2013. Aliás, até Papai Noel poderia ter sido melhor administrador público do que João Henrique Carneiro que deixou a cidade em maus lençóis. Neto tem seus méritos. Não se pode negar: regularizou a coleta de lixo, requalificou as vias da cidade com novo asfalto, nova iluminação e estabeleceu novas medidas para a melhoria do trânsito.

Entretanto, o estilo de governar denota em ACM Neto um ranço carlista inconfundível: o de privilegiar as elites e maquiar o cenário público. É fácil de explicar. A prefeitura de Salvador não governa para o subúrbio. É como se esta região da cidade não pertencesse efetivamente aos limites de Salvador. Enquanto isso, as orlas da Barra, Boca do Rio e Itapuã, por exemplo, sofreram e sofrem reformas constantes que beiram o narcisismo. Há de se pensar que o soteropolitano vive somente de praia, o que não é verdade. Soteropolitano, como qualquer brasileiro, apesar da paisagem tentadora do mar, também trabalha e estuda.

A sanha pela construção e reforma de novos espaços sociais foi tão grande por parte desta gestão que, a mando não se sabe de quem, homens colocavam placas da prefeitura em obras do governo do Estado. Isso não pegou bem. Outra coisa que não pegou bem foi o aumento das tarifas de transporte público. Em Salvador se paga R$ 3,00 por uma viagem que não vale a pena. O trânsito, em horários de pico, mais se assemelha a uma guerra civil: é um tal de salve-se quem puder. O aumento, reajustado todos os anos, segundo contrato assinado pelo prefeito, exigiria que as empresas de transporte renovassem a frota. Pois bem. Chegamos à parte mais polêmica do texto.

Talvez as pessoas não consigam definir com clareza a diferença entre os novos e os antigos ônibus. A MAN Volkswagen anunciou a venda de 750 chassis para o sistema de transporte de Salvador. Parece que a mudança foi apenas na estrutura dos veículos. Porque de resto – e qualquer um soteropolitano que lê este texto pode confirmar – a alteração foi somente a pintura da carcaça. O interior dos coletivos não se alterou senão com a mudança, em alguns casos, da posição do cobrador que foi posto ao lado do motorista. É preciso notar que continuam os atrasos, a lotação, os vícios dos motoristas que não param nos pontos.

É evidente que a estrutura do transporte público soteropolitanos está caindo aos pedaços, mesmo com esta aquisição. A mudança do sistema somente acontecerá quando a prefeitura reconhecer a origem do problema. Enquanto não se reconhecer as debilidades e as adversidades sofridas pelos homens que conduzem os coletivos (motorista e cobrador), o sistema não vai mudar. Pode preencher a necessidade de veículos, tecnologia e engenharia viária. Mas as necessidades humanas estão em primeiro lugar. O nobre leitor ou leitora pode se perguntar agora como vivem os motoristas, que adversidades sociais enfrentam, como se condicionam para enfrentar os obstáculos do trânsito.

Parte destes ônibus pintados de azul e branco – Lúcia Santaella não enxergou esta significação como o fez nas vias vermelhas de São Paulo – estampam nas avenidas com a doce ilusão da renovação. É mais do mesmo. O velho revestido de novo. Merece críticas como mereceria elogios se de fato houvesse uma renovação de 90% da frota como foi prometido. Pode haver, andando por esta cidade, uns duzentos ônibus novos, obviamente destinados aos roteitos mais célebres da capital baiana. Ranço que é ranço não se desfaz assim e viva o Netinho!

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