Blog do Mailson Ramos

Imparcialidade é o engodo discursivo da imprensa brasileira

Imparcialidade não existe

Imparcialidade não existe – Crédito: Reprodução

 

Imparcialidade é o engodo discursivo da imprensa brasileira

Salvador-Ba – A imparcialidade é discurso intocável da imprensa. Repete-se como um mantra a construção de sentido em torno da lisura dos veículos de comunicação no Brasil. Fala-se da verdade dos fatos, da realidade imutável dos acontecimentos, do caráter inalterável da notícia. Este discurso é cada vez mais debatido nos círculos acadêmicos, onde a própria ciência da comunicação desfaz, em fragmentos, a ideia da imparcialidade. Mas é preciso entender como esta ideia é fixada nos consumidores de notícia. Aliás, eis aqui uma errata paragráfica: não existe mais consumidores de notícias. Existem prossumidores, aqueles que produzem e também consomem, numa duplicidade de ações proporcionada especialmente pelo movimento midiático das redes sociais.

O homem é naturalmente um ser parcial. O peso de suas opiniões e ideologias deve sempre pender para um lado. O estabelecimento do peso das opiniões constituirá uma noção definitória do sujeito. As organizações de comunicação, salvaguardando sua missão, visão e valores, define políticas de construção da notícia, respeito ao leitor, telespectador ou ouvinte, respeito aos patrocinadores e, sobretudo respeito à tal imparcialidade. Ora, ela não existe. E o que tem denegrido a imagem dos orgãos de imprensa é esta cantilena vazia e inescrupulosa escondida por trás de códigos de ética nunca respeitados.

Antecipo que a ética tem sido esgarçada na impresa brasileira. A corrupção é um mal que deve ser combatido com eficiência pelas instituições do judiciário. A imprensa, valendo-se de seu atributo histórico na cobertura dos acontecimentos, definido-se como imparcial, tem desestruturado a si mesma com um discurso inverídico. Porque não dissemina notícias senão com a clara intenção de privilegiar alguns em detrimento de outros. Continua sendo seletiva e hipócrita, mas com um discurso de quem lida com a verdade dos fatos. Está aí um véu que precisa ser despojado da cabeça dos media.

No vácuo da história, e não faz muito tempo, a imprensa brasileira se dizia imparcial diante da instalação da ditadura militar, a partir de 1964. Imparcial somente no discurso, porque nos primeiros anos serviu aos generais como alto falante. Depois foi castigada pela dureza do regime e o cerceamento da liberdade de ofício: cassou-se a expressão. Mas mesmo assim, entojada de seus vícios, a imprensa não foi capaz de exprimir o mea culpa, salvo raras exceções. Amargou o indigestivo gole da vergonha, mas jamais conseguiu definir sua participação no regime ditatorial de vinte e um anos como desprezível. Este discurso jamais foi ou será ouvido.

A imprensa não foi imparcial e jamais deverá sê-lo. Mas tem a obrigação de cumprir com a verdade, não a dos fatos, mas a verdade da credibilidade. Deve dar peso igual a duas matérias antagônicas. Deve direcionar as câmeras e microfones a todos os assuntos, a todos os escândalos, a todos envolvidos. A imparcialidade não existe, é somente discurso. Mas o caráter, as regras jornalísticas, o espaço igualitário e a vontade de questionar o inquestionável existem sim. Fora isso, estamos de braços atados numa procura insólita por enterrar a imprensa ou transformá-la num mecanismo de movimentação de interesses. Escusos.

Algumas organizaçãoes no campo da comunicação já enfrentam seus medos e traçam perspectivas muito interessantes sobre seu posicionamento ideológico. A destacar, com justiça, alguns editoriais da Folha de S. Paulo que definiram suas posições ideológicas sobre importantes temáticas debatidas pela sociedade brasileira. É um caminho. É melhor ser um jornal que define suas opiniões publica e claramente do que dizer-se imparcial e, no vão dos interesses obscuros, decair para um lado ou outro como fatalmente tem acontecido. Afinal, a imparcialidade não existe.

base-banner22

Deixe um Comentário!