História

1989: Quando a TV Globo manipulou um debate presidencial

Em algumas cenas, reconstituiu o desempenho de Collor e de Lula – com uma seleção de imagens nitidamente desfavorável a Lula

1989: Quando a TV Globo manipulou um debate presidencial

Em algumas cenas, reconstituiu o desempenho de Collor e de Lula – com uma seleção de imagens nitidamente desfavorável a Lula.

A primeira eleição direta para Presidência da República realizada no Brasil, após o encerramento do regime militar foi cercada de grande expectativa da população. Foi antecedida por comícios e concentrações populares que adotavam, por lema, frase “diretas já”.  Anteriormente, atribuiu-se ao Congresso eleito em 1986 o papel de Assembleia Constituinte, destinada a elaborar uma nova Constituição – que ficou sendo conhecida como Constituição de 88, por ter sido aprovada em Outubro de 1988.

Um grande número de candidatos e uma grande expectativa cercaram o período que antecedeu o dia da votação. Foi também a primeira aplicação do sistema de votação em dois turnos, para o caso de o vencedor de primeiro turno não atingir maioria absoluta. Os dois primeiros colocados no primeiro turno foram Fernando Collor de Melo e Luis Inácio Lula da Silva.

O segundo turno se foi uma eleição das mais disputadas. Diariamente, em rede nacional, pela televisão, os dois candidatos apresentaram programas inovadores, usando imagens e sons destinados a mobilizar seus eleitores e conquistar o voto dos demais candidatos que haviam disputado o primeiro turno.

Dois debates foram realizados: o primeiro logo no início e o segundo três antes do dia da votação. O primeiro revelou certa vantagem para o candidato Luis Inácio Lula da Silva, o que levou seu programa a utilizar as imagens deste debate na propaganda diária, reeditando os melhores momentos de seu desempenho. As pesquisas realizadas após este primeiro debate mostraram um crescimento constante de Lula e uma queda expressiva nas intenções de voto em Collor.

Ante do segundo debate, ocorrera uma progressiva aproximação nas intenções de voto dos dois candidatos. Projetadas as tendências, era possível prever uma pequena vantagem para Lula, no dia da eleição. O segundo debate foi também antecedido de grandes acusações recíprocas na propaganda de televisão – o que aumentou a tensão em torno deste debate.

Os dois candidatos se apresentaram em rede nacional durante o horário noturno, durante mais de duas horas, terminando perto da meia noite. Como se sabe, a partir das dez horas da noite, os índices de audiência caem – o que fez com a audiência ficasse bem menor no final do que no início do debate.

No dia seguinte, no horário nobre das 20 horas, o “Jornal Nacional” – noticiário de grande audiência da Rede Globo de Televisão – apresentou uma reedição resumida do debate. Em algumas cenas, reconstituiu o desempenho de Collor e de Lula – com uma seleção de imagens nitidamente desfavorável a Lula em dois sentidos: deu alguns minutos a mais a Collor e mostrou os melhores momentos de Collor sem fazer o mesmo com Lula.

A impressão deixada por esta reedição foi imediata: ficou visível, para a grande maioria do eleitorado que não assistira ao debate todo, que Collor se mostrara mais competente. Esta impressão se refletiu nas pesquisas realizadas nos três dias subsequentes – entre os quais o próprio dia do pleito: Collor voltou a subir e Lula caiu. Como consequência, Collor venceu. No entanto, uma grande controvérsia foi levantada por parte da imprensa em torno desta reedição do debate. A própria direção da emissora acabou por reconhecer que aquela versão do último debate teve nítida influência sobre o resultado da eleição, vindo a demitir o Diretor de Jornalismo que fora responsável por aquele resumo do debate.

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