Blog do Mailson Ramos

As viúvas intransigentes do pós-eleição

As viúvas intransigentes do pós-eleição

As viúvas intransigentes do pós-eleição – Foto: Marcos de Paulo/ Estadão

Independente do pranto convulso das viúvas, a política nacional segue em frente, com desafios cada vez maiores. O país anseia por lutas cujo prêmio seja seu crescimento e desenvolvimento.

Viúvas cumprem com desvelo a tarefa de lamentar a morte dos maridos; os sufrágios pela alma do falecido representam uma maneira de não esquecê-lo e de mostrar a todos que, naquele momento de dor, ninguém deve fazê-lo. Por idealização da santidade, qualquer um é capaz de, à beira do túmulo, féretro sucumbindo, lançar em voz alta as últimas palavras de dignidade direcionadas a quem se vai.

Funérea esta introdução, mas autoexplicativa por exemplificar as atitudes das viúvas convulsas da campanha de Aécio Neves à presidência da República. Bom papel faz quem arrumou as malas e promete “desistir do Brasil”. É melhor partir para Miami do que permanecer engrossando o coro das viúvas da ditadura militar, dos conspiradores, de gente que aderiu irremediavelmente ao protofascismo.

Todas as alternativas de protesto foram esgotadas desde o fatídico domingo, 26 de outubro, quando Dilma Rousseff foi reeleita presidente. Desde o preconceito em relação aos nordestinos às passeatas fascistas na Avenida Paulista, o repertório não muda; ele deixa evidente as proposições antidemocráticas de um grupelho. Vale ressaltar que as viúvas não se cansam e não devem se cansar nem mesmo quando se esgotarem as possibilidades democráticas. O problema será depois do esgotamento dessas possibilidades.

Existem duas possibilidades para o aumento das vozes das viúvas: a 55ª Legislatura (senadores e deputados eleitos em 2014) são extremamente conservadores; para completar, o PMDB assumiu de fato a sua posição de mercador da política nacional. É fisiologismo político de quinta categoria.

Na Câmara Federal, a iminente vitória do deputado Eduardo Cunha coloca sobre a relação PT/PMDB uma interrogação; Cunha faz crer que não terá diálogo com o governo. E os deputados comemoraram, na última semana, a derrubada do decreto dos conselhos populares, sob a alegação de que ele feria as prerrogativas do Legislativo. Rechaço à participação popular, demonstração de conservadorismo.

Uma família paulista, segundo matéria da Folha, parte para Miami em 15 de novembro; dizem desistir do Brasil e das dificuldades que o país vai enfrentar a partir de agora. Eleitores de Aécio, eles não esperavam que muita coisa fosse feita, mas pelo menos mudasse o panorama. Esta família tem todo o direito de ir embora, assim como aqueles que ficam tem o direito de protestar; eles só não têm o direito de desistir do Brasil.

E lutar por este país não significa passar por cima da vontade da maioria e achincalhar a democracia; lutar pelo Brasil não é exigir a intervenção militar que arranque do seu posto uma presidente eleita com os votos da maioria; lutar politicamente pelo Brasil é fazer oposição ideológica e política baseada em debates claros e não conspirações.

Independente do pranto convulso das viúvas, a política nacional segue em frente, com desafios cada vez maiores. O país anseia por lutas, cujo prêmio seja o seu crescimento social e econômico. Em vez de chorar, prantear uma vitória que não aconteceu, é hora de abrir caminho para auxiliar o governo eleito, que tem seus deméritos, mas ainda assim é aquele que está no poder.

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