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Blog do Mailson Ramos

Superficialidade: A televisão e a sociedade irreal

Superficialidade: A televisão e a sociedade irreal
Superficialidade: A televisão e a sociedade irreal
O cidadão que consome a televisão brasileira é superficial. Vive numa redoma de irrealidade. Um produto que reserva as características do produtor.

A televisão simboliza um espectro da realidade. Com os privilégios da sua amplitude, ela imprime o esboço de uma sociedade irreal, caracterizada por estereótipos múltiplos, todos superficiais, fúteis e frívolos. Esta sociedade irreal se constrói dia após dia sob a sombra da superficialidade da vida e adquire adeptos seduzidos por um apelo ideológico (no sentido de ideia) ou necessidade de consumismo.

A imagem transmitida pela televisão deveria ser o reflexo da sociedade. Entretanto, existe um condicionamento, uma intervenção abrangente deste meio de comunicação sobre a opinião pública, de modo a conformar a sociedade, em vez de representar as suas especificidades. Deste modo, os cidadãos são muito mais resultados dos processos midiáticos que absorvem do que base para a construção destes mesmos processos.

Para além desta análise – e como provas destas arguições – é preciso tomar como exemplo o conteúdo da televisão brasileira. Há muito tempo, a telenovela produzida no Brasil se consolidou como conteúdo indispensável de exportação. Consumida nacionalmente por boa parte da população, a novela adquiriu espaço na subjetividade e na concretude da rotina do cidadão brasileiro. Contudo, o caminho parece ter sido desviado.

Nos últimos anos, a telenovela abraçou características como a superficialidade dos enredos, personagens nada cativantes, histórias escritas e dirigidas a esmo, ao sabor de um entretenimento vago, forçado e pouco sutil. De maneira monocrática, a figura do mocinho e do vilão ocupa a síntese de todas as obras, num reprise interminável da mesma história. O vício do padrão estabelecido contagiou produções em larga escala.

A febre dos realities shows constrói atmosferas nada reais; erige simbologias de um grupo social organizado para dizer e não dizer diante das câmeras o que o dono do jogo quer. E o dono do jogo não é o telespectador. Nunca será. Das casas monumentais aos cenários opulentes, estes programas criam e recriam protótipos de artistas, famosos sem fama, salvo raríssimas exceções. É o conteúdo opaco ditando uma fórmula exangue, repetida ao longo dos anos para a satisfação do mau gosto.

Tão superficial quanto a ficção e o entretenimento é o jornalismo na televisão. Ele, aliás, não difere do jornalismo praticado nas redações dos grandes jornais, das revistas semanais, dos grandes portais de notícias na internet. Os telejornais são similares, baseados no padrão do Jornal Nacional, da TV Globo. Este, por sua vez, traduz em toda a sua essência a manipulação das notícias para ferir e vilipendiar, para esconder e fazer sombra sobre algum protegido, para acossar e destruir inimigos que somente uma empresa com as dimensões da Globo poderia ter.

Num dos momentos mais graves da crise política, a televisão funcionou como incendiária; não diferente do restante da mídia ocasionou confrontos e por muito pouco não gerou uma convulsão social com derramamento de sangue. Em seu máximo grau de superficialidade destilou veneno sem a ressalva do antídoto. Jornalistas incapazes de ir ao cerne dos fatos capitularam de suas atribuições adentrarem no jogo do caos. O Brasil estava a milímetros de uma guerra interna e os noticiários municiaram os combatentes.

A televisão conclamou manifestantes a saírem das suas casas para protestar contra um governo. Artífice desta empreitada, a TV Globo relutou, no final da década de 1980, a apoiar as Diretas Já e a redemocratização. Como poder simbólico que se impõe, a televisão comanda um exército de consumidores inveterados das suas notícias, portanto, um exército de cidadãos rasos e superficiais como ela, indisponíveis a pensar sobre outro espectro que não aquele a quem está invariavelmente condicionado.

Sobre as emissoras e as suas especificidades, estas constatações não são uma regra, mas há poucas exceções.

A televisão carrega consigo a possibilidade de ser múltipla, cultural, imbatível como meio de comunicação. Mas não com a incapacidade de quem a administra hoje. Posicionada no centro de monopólios de mídia, gigantes, porém deficitárias, as grandes redes precisam rastejar atrás de governos, políticos e grandes setores estatais para sobreviver. Viciou-se, de certo modo, em crescer com o apoio de outrem, favores especiais, doações, dinheiro de origem desconhecida. As verbas de publicidade do mercado não mais as sustentam.

A televisão escolheu um caminho obtuso que é manter este espectro de irrealidade da sociedade e do cidadão que nela vive. Ela se manterá superficial e sobrevivendo dos mesmos vícios de sempre, atrelada como mídia que é aos interesses dos setores hegemônicos. E continuará perdendo adeptos para as novas mídias que conformam, em cores mais definidas e com melhor aparência, a realidade vivida.


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