Quando ‘Tieta’ mostrou um retrato da teocracia de hoje

Quando ‘Tieta’ mostrou um retrato da teocracia de hoje

Quando ‘Tieta’ mostrou um retrato da teocracia de hoje – Foto: Reprodução

Em 1989, Aguinaldo Silva propôs em ‘Tieta’ um retrato do que é hoje a teocracia neopentecostal que não esconde mais a sua fome por poder. Poder terreno.

Da livre adaptação de ‘Tieta do Agreste’, de Jorge Amado, a novela ‘Tieta’ foi uma obra marcante da televisão brasileira por ter levantado assuntos polêmicos como a chegada do Pastor Hilário Correia a Santana do Agreste.

Jorge Dória, ator consagrado, interpretou em ‘Tieta’ o pastor Hilário Correia. Ele chega a Santana do Agreste para encontrar os fiéis e “confirmar a sua fé” pedindo que eles continuem com as doações à sua igreja. Entretanto, depois de causar tantos entreveros na pequena cidade, ele é levado até Tieta, personagem de Betty Farias, que lhe oferece uma boa quantia em dinheiro para dali ir embora.

O pastor aceita o dinheiro e desaparece. Cercado por forte segurança e andando num carro luxuoso, Hilário segue o seu itinerário e a aplicação de sua doutrina inclusive em programas de rádio e televisão. Não se sabe ao certo o que o autor Aguinaldo Silva tentou mostrar com aquele personagem, mas em 1989/1990, época em que foi exibida originalmente a novela, pululava no Brasil as igrejas neopentecostais.

Aquele talvez tenha sido um retrato bem acabado da teocracia instalada hoje na sociedade brasileira. Pastores corrompidos pelo poder e envolvidos na política como uma forma secundária de manter o domínio sobre o rebanho.

Comprar um terreno no céu talvez não seja hoje a expressão mais utilizada pelos pastores evangélicos famosos que ergueram impérios com doações dos fiéis. Pedir doações evoluiu conforme a evolução do pensamento das assembleias que não concebem a ideia da intermediação de outrem para angariar a salvação.

O poder destes homens, contudo, mantém-se inabalado nas estruturas que criaram para a manutenção do poder. O poder lhes apraz como as necessidades que criam com símbolos para trazer do inexplicável, do religioso as concepções e bases de uma doutrina. Sem doutrina não há doação.

Por isso, Silas Malafaia, após ser conduzido coercitivamente pela Polícia Federal para explicar uma doação de R$ 100 mil e envolvimento em esquema de corrupção, revidou no Twitter com a declaração de que já foi presenteado com R$ 500 mil. Ele, Malafaia, já angaria apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República, em 2018.

Há alguns meses, o missionário R.R. Soares recebeu no palco, em evento, o sacrossanto Eduardo Cunha, que, segundo ele, havia livrado as igrejas evangélicas da cobrança de impostos proposta por Dilma Rousseff. Cunha também já foi elogiado por Silas Malafaia, como a pessoa mais inteligente e honesta do mundo. (Assista o vídeo aqui).

Se em 1989 havia a percepção de que a sociedade seria suprimida por uma teocracia pura em ramificações e tentáculos, hoje se tem a certeza do quão “dominável” é o rebanho.

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