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A Cidade de São Paulo Cinza é o retrato de Doria Gray

A Cidade de São Paulo Cinza é o retrato de Doria Gray
A Cidade de São Paulo Cinza é o retrato de Doria Gray – Foto: Reprodução
As ações de João Doria focam em um personagem que é ele próprio, mostrando uma adoração a sua própria imagem, seu narcisismo.

 O prefeito de São Paulo tem sido comparado ao personagem de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, um jovem que para eternizar sua beleza fez um pacto com o demônio e, alimentando sua vaidade, abriu mão até da própria alma. Porém, enquanto fixava e exaltava sua juventude e beleza, encarnava faces do mal, seu retrato envelhecia e revelava uma estética que escondia superficialidade, hipocrisia, mentira, cinismo.

Nessa obra o autor discute a arte e as representações do indivíduo e da sociedade, demonstrando que e o esteticismo e o elitismo escondem o narcisismo, futilidade e desprezo aos outros. Um enredo atual que nos remete ao atual prefeito em São Paulo, João Doria, cujos atos ao invés de centrarem a gestão púbica e sua relação com as instituições democráticas, focam em um personagem que é ele próprio, mostrando uma adoração a sua própria imagem, seu narcisismo.

Tratando com superficialidade questões fundamentais do espaço urbano e sem propor políticas públicas efetivas de transporte, moradia, lazer, acessibilidade, entre outras, o prefeito fez apresentações se vestindo de gari, usando cadeira de rodas, retirando cobertores de pessoas em situação de rua, anunciando supostas doações de grandes empresas para limpar banheiros públicos e aparecendo ao lado de artistas da grande mídia. Seu governo abandona os princípios de gestão democrática, não faz interlocução com os movimentos sociais, conselhos de direitos, sindicatos e outros setores representativos da diversidade e inclusão. Sem hipocrisia talvez descobrisse que mais que a falta de limpeza em banheiros, a população dos grandes centros urbanos enfrenta problemas sérios relacionados ao tratamento digno como cidadãos.

Mas, a linguagem de Doria Gray não é a da cidadania. Enquanto retira subsídios para o leite e transporte da educação infantil, quer parecer benevolente anunciando supostas doações de empresários. Uma verdadeira demonstração de cinismo porque serve para inverter a posição dos sujeitos de direitos que passam a ser tratados como sujeitos de caridade. Também, é sempre bom alertar que a linguagem capitalista não contempla a palavra doação, isso é um engodo ou mentira. Os defensores desse alastramento das parcerias com a iniciativa privada se utilizam de mecanismos sutis para dominar cada vez mais o setor público, eliminar postos de trabalho e tornar rentável a oferta dos diversos serviços públicos.

Os atos do prefeito vestido de “gente” não escondem a perversidade do elitismo. Sua trajetória é dentro de um mundo de milionários que no Brasil concentram entre 6 famílias a mesma riqueza que 50% da população. Suas ações de “limpeza”, simbolizadas pela vassoura, só reforçam desprezo aos pobres, aos que ocupam as ruas de São Paulo, aos que trabalham e viajam suados por horas dentro de um ônibus ou de um metrô. Se estivesse preocupado com a dignidade dessa população entenderia sua luta pelo direito de chegar à aposentadoria, entre outras de quem se insurge contra o destino de morrer de fome.  O elitismo de Doria se revelou totalmente quando investiu contra a cultura popular, contra a arte que fala do racismo, da segregação urbana e das diversas violências.

Doria Gray mandou pintar de cinza mais de 5 Km de murais de grafite na cidade de São Paulo. O maior museu a céu aberto da América Latina. Essas obras eram a expressão de gritos de liberdade, de pessoas que em tempos de ódio falam de amor, de música e de poesia. O prefeito mandou apagar os muros porque são representações de resistência e contrastam com os padrões do esteticismo e elitismo que ele representa. Um ato para calar as vozes de populações que são excluídas, esquecidas, silenciadas ou exterminadas. Trata-se de um autoritarismo que visa eliminar a pluralidade e enquadrar a sociedade em regras que ignoram as belezas que traduzem em cores e versos o direito à igualdade e à diversidade.

Doria se elegeu trabalhando com os símbolos capitalistas que reforçam o imaginário social da felicidade vinculada ao consumo de determinados bens materiais e à fama, uma realidade ilusória que assume como valores o individualismo e a competitividade, desprezando aqueles que são considerados “os restos” em uma sociedade que não comporta todos. Dentro dessa geografia da exclusão, usando a figura do “João trabalhador”, o prefeito busca fixar a imagem de homem rico, famoso, bem sucedido, empreendedor e “bem feitor”. Para além do narcisismo de Doria, a estética do prefeito riquinho, perfumando e de vassoura na mão revela uma concepção elitista que mostra para quem ele governa. Suas ações são midiáticas. Doria é parte do espetáculo que serve para desviar a reflexão e a crítica sobre o sistema que ele representa e que trata as periferias como depósitos humanos, lugar de descarte.

Assim como na obra de Oscar Wilde que quando o personagem percebe o estrago se arrepende, Doria tenta voltar atrás. Ciente de que sua imagem é o retrato cinza de São Paulo, anunciou que pretende criar concursos para selecionar alguns artistas, pagando para que repintem os muros. Como quem pensa em produzir arte de rua em laboratório, sob o controle de “eruditos”, o Secretario da Cultura de Doria, André Sturm, planeja: “o grafiteiro se inscreve, apresenta suas ideias e uma comissão (…), gente entendida na área seleciona”. Mas, grafite é dissenso, é desconstrução, é resposta ao encaixe, é revelação da multiplicidade de expressões que não foi consumida pela máquina. Portanto, nada mais contraditório à essência da arte liberdade do que acreditar que se pode designar “especialista” que escolha obras e artistas para refazer murais destruídos por um poder arbitrário.

Interrogamo-nos ainda sobre suas concepções e intencionalidade. Não esqueçamos que a ascensão de partidos de direita em diversos municípios e estados do país também tem eliminado secretarias, fundações e projetos vinculados à cultura. Sem dúvida, está colocada a questão da relação da sociedade com seu sistema de representação. Essa desvalorização da cultura, como atividade que diz respeito às diversas dimensões da vida social, que engloba valores, ideologias, mitos, instituições, práticas e comportamentos, é determinante em uma estrutura de Estado que se utiliza de instrumentos de dominação social.

Será preciso coragem para discutir! No contexto pós-golpe, pressupondo que tudo é determinado do alto por uma elite política e intelectual que está no centro de poder, apagam-se os princípios democrático e são retomados mecanismos de repressão e censura para estabelecer o controle social. De forma análoga, tanto o grafite apagado por Doria em São Paulo quanto os livros didáticos rasgados em Rondônia, são atos grosseiros que objetivam limitar a educação à instrução de determinados saberes que se pode aprender e moldar o comportamento social à moral homogeneizadora que desvaloriza as diferenças.

A expulsão do grafite das ruas de São Paulo é a tentativa de marginalização dessa atividade, de restringir a produção artística àquela organizado pelo poder econômico ou segundo uma racionalidade que estreita, hierarquiza e faz o pagamento da diversidade. Em A Cultura no Plural, Michel de Certeau afirma que uma cultura não pode se alimentar do desprezo ao outro, propõe uma mudança conceitual que contraponha  essa vontade de instaurar a unidade, entendida como um totalitarismo.

“A cultura no singular impõe sempre a lei de um poder. À expansão de uma força que unifica colonizando e que nega ao mesmo tempo seu limite e os outros, deve se opor uma resistência. Há uma relação necessária de cada produção cultural com a morte que a limita e com a luta que a define. A cultura no plural exige incessantemente uma luta.” (Certeau, 2011)

 É atual e inspiradora a letra da música cantada pela Marisa Monte que fala da tristeza deixada nos muros apagados, cobertos de tinta cinza. Em seus versos diz que merecemos ler as palavras e as letras de gentileza nas ruas da cidade, deixando um questionamento: “Por isso eu pergunto… A você no mundo… Se é mais inteligente… O livro ou a sabedoria”.

Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal pelo PT-RS.


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