Mário Soares, o pai da democracia portuguesa

Mário Soares, o pai da democracia portuguesa

Mário Soares, o pai da democracia portuguesa – Foto: Francisco Leong/ AFP

Líderes do mundo inteiro ressalvam as qualidades de um homem que lutou pela democracia e liberdade dos portugueses: Mário Soares.

Mário Soares morreu ontem, pelas 15.28 (07/01), com 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha (HCV), em Lisboa, onde tinha sido internado de urgência em 13 de dezembro. O governo decretou três dias de luto nacional. O funeral realizar-se-á na terça-feira, no cemitério dos Prazeres.

A uma só voz, da esquerda à direita, o país político lamentou a morte do principal arquiteto daquilo que é hoje o regime político português: uma democracia parlamentar liberal europeia.

O Presidente da República fez uma declaração em Belém sublinhando a “imortalidade do legado” do homem que em 1973 fundou o PS e que chegou ao 25 de Abril um ano depois com 50 anos, mais de metade dos quais intensamente vividos a combater a ditadura. Marcelo Rebelo de Sousa salientou “o combate pela duradoura liberdade com justiça na nossa pátria comum”, o político que “nunca desistiu de um Portugal livre, de uma Europa livre, de um mundo livre”. “No que era decisivo, ele foi sempre vencedor.”

As reações políticas dos órgãos de soberania seguiram-se pela ordem prevista. Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, escreveu numa mensagem divulgada no site parlamentar que “não será exagerado dizer que é o último quartel do século XX português que se confunde com ele”. “Se a nossa geração já fez política em democracia, se as gerações dos meus filhos e netos já cresceram num país livre, democrático e europeu, a ele muito o devemos”, disse. “O Portugal democrático, europeu e cosmopolita é o país de Mário Soares.” Mais tarde, depois de visitar a família de Soares no HCV, Ferro Rodrigues recordaria o slogan que ficou para a história da campanha que levou Soares a Presidente da República, em 1986: “Penso que a palavra de ordem “Soares é fixe” vai perdurar durante muitos anos.”

A morte de Soares apanhou o primeiro-ministro, Antônio Costa, a iniciar uma viagem de Estado à Índia – viagem que não interromperá, estando portanto ausente das cerimônias fúnebres (ver texto na página 5). “Perdemos hoje aquele que foi tantas vezes o rosto e a voz da nossa liberdade. Mário Soares foi um homem que durante toda a sua vida se bateu pela liberdade, fê-lo contra a ditadura, sofrendo a prisão, a deportação e o exílio.” “A perda de Mário Soares é a perda de alguém que teria sido insubstituível na nossa história recente.”

Jorge Sampaio e Cavaco Silva, que sucederam a Mário Soares no cargo de Presidente da República, também não pouparam elogios. “Foi preso, exilado, nunca perdeu o seu amor por Portugal. Sempre acreditou naquilo que era o interesse de Portugal e no que era estrategicamente vital para a democracia portuguesa”, assinalou Jorge Sampaio – que entrou no PS em 1978 a convite de Soares .

Mário Soares, o pai da democracia portuguesa

O primeiro ministro de Portugal visita o Governador do Rio Leonel Brizola em 1983 – Foto: Ricardo Beliel

Cavaco Silva – com quem Soares manteve várias vezes duros combates políticos – reconheceu isso mesmo, que foram “adversários políticos”, mas que isso não o impedia de o ver como um homem que “dedicou grande parte da sua vida à defesa dos ideais republicanos e ideais democráticos”, que lutou “contra todas as formas de totalitarismo” e que “tinha uma visão estratégica da importância da adesão de Portugal à Comunidade Europeia”.

Os últimos combates de Soares foram contra o governo de Passos Coelho (2011-2015) e em defesa de José Sócrates. O líder do PSD – partido cuja agenda política dos próximos dias foi cancelada – disse que “será impossível” escrever a História de Portugal das últimas dezenas de anos “sem nelas encontrar referências múltiplas à intervenção política de Soares, em muitas ocasiões decisiva”. E seria “mesquinhez não sublinhar o papel muito relevante” que teve na democratização do país. Na relação entre os dois sempre imperou o “respeito e a cordialidade”, apesar das divergências. Já Sócrates salientou o apoio que dele recebeu quando esteve preso e depois: “O que ele fez por mim nos últimos tempos ficará para sempre no coração.” Um outro ex-líder do PS, Antônio Guterres, agora secretário-geral da ONU, recordou o ex-Presidente da República como “um dos raros líderes políticos de verdadeira estatura europeia e mundial”.

No plano partidário, só o PCP destacou uma figura secundária. José Capucho, membro do secretariado do Comitê Central, lembrou o “passado de antifascista” de Soares mas também não escondeu as “profundas e conhecidas divergências” que o seu partido teve com ele, devido ao “papel destacado” do fundador do PS “no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril”.

Pelo BE e pelo CDS falaram as respectivas líderes. A bloquista Catarina Martins recordou “com gratidão o homem que mandou a idade e o conforto às malvas para se levantar na Aula Magna, com toda a esquerda, na defesa do país contra a troika” e a centrista Assunção Cristas homenageou o homem que teve um “papel fundador no Portugal democrático, especialmente no difícil período revolucionário em que se opôs à hegemonia política e totalitária”.

Internacionalmente, também se fizeram ouvir várias reações. O socialista espanhol Felipe González tratou Soares como “patriarca da democracia portuguesa” e o ex-presidente brasileiros Lula da Silva definiu-o como “um dos grandes homens públicos do século XX, não só de Portugal mas da Europa e do mundo.” O PS francês emitiu uma nota de condolências. A notícia teve destaque em todos os grandes órgãos internacionais de comunicação social.

Fonte: Diário de Notícias

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