A figura do Caboclo na Independência do Brasil

A figura do Caboclo na Independência do Brasil

A figura do Caboclo na Independência do Brasil

A figura do Caboclo está presente nas comemorações da Independência da Bahia desde 1824, quando a população, para relembrar a entrada do exército pacificador em Salvador.

A figura do Caboclo representa a vitória nas Guerras de Independência e o surgimento da nova nação, fazendo parte do panteão cívico juntamente com os heróis do Dois de Julho. É uma figura extremamente popular, que agrega uma vasta gama de significados ultrapassando, muitas vezes, o seu sentido cívico.

Esta figura está presente nas comemorações da Independência da Bahia desde 1824, quando a população, para relembrar a entrada do exército pacificador em Salvador, enfeitou uma carreta tomada do inimigo na batalha de Pirajá, puseram sobre ela um velho de descendência indígena e levaram-na, em cortejo, da Lapinha ao Terreiro de Jesus. O ritual se repetiu no ano seguinte e, em 1826, foi esculpida a imagem do caboclo que circula nas ruas até hoje.

A identificação popular dessa figura reside no fato dele representar os heróis que lutaram na Independência e que não são comumente lembrados: os soldados esfarrapados, os batalhões de índios usando armas tribais, de negros escravos e libertos, os sertanejos, à população voluntária que se organizou por conta própria em grupos para lutar, e que formaram maior contingente das tropas da Bahia.

É importante ressaltar a simbologia desta figura dentro das comemorações. O Caboclo, paramentado como um guerreiro e portando uma lança, esmaga uma serpente aos seus pés que representa a tirania e dominação portuguesa afirmando seus direitos pela força: um símbolo de vitória, escolhido e aclamado pelo povo como o poder bélico que defende sua pátria.

A figura do Caboclo na Independência do Brasil

A figura do Caboclo na Independência do Brasil – Foto. Fernando Vivas/Ag. A Tarde

A tensão social entre as classes dominantes e a população sempre esteve presente nas comemorações do Dois de Julho e era expressa de diferentes formas variando conforme o contexto histórico. Nas comemorações durante o Império, muitas vezes afloravam as hostilidades entre a população brasileira e portugueses: muitas vezes os brasileiros saqueavam as casas dos portugueses, em momentos de fúria popular que ficaram conhecidos como Mata-Maroto.

Nos primeiros anos da República, a elite tenta dar um novo sentido à festa e isentá-la do seu caráter popular dando-lhe ar de civilização e ordem nos moldes do positivismo[1] e das teorias eugenistas[2] do século XIX, dentro dos quais não cabia um ícone patriótico indígena – associado à barbárie – e muito menos mestiço. No intento de tornar o Dois de Julho um evento livre de aspectos religiosos ou adorações, a elite política e intelectual baiana tornou ponto pacífico a retirada dos caboclos do cortejo, mas sempre que estes não desfilavam a população não comparecia às festividades e promovia seu próprio cortejo em outra data.

A principal crítica da elite ao sentido popular da festa era o caráter devocional atribuído a uma comemoração patriótica e não religiosa. Muitos terreiros realizam as festas do caboclo no dia 2 de Julho sem, no entanto, terem o mesmo significado, ou seja, o Caboclo da Independência e o do Candomblé têm representações próximas, mas não são a mesma, por assim dizer, entidade.

Apesar de todos os revezes, a tradição popular resiste e o Caboclo permanece latente em nossa cultura, a exemplo da frase “chorar no pé do Caboclo”, que é comumente usada na capital baiana, quando se vai pedir algo ou fazer uma reclamação. O Dois de Julho, que começou como uma manifestação popular, foi institucionalizado e tornou-se feriado oficial em 1831.

O cortejo e as comemorações mudaram de aspecto e estrutura com o passar dos anos conforme as mudanças sociais, políticas e até urbanísticas na Bahia, mas uma figura permaneceu constante: o Caboclo.

[1] Corrente da Sociologia fundada no século XIX, pelo francês Auguste Comte, que defendia que sociedade e o comportamento humano poderiam ser enquadrados por regras exatas. A máxima do Positivismo é a frase “O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim” que foi incorporada no lema da Bandeira Nacional, “Ordem e Progresso”. Uma característica marcante do positivismo é a ideia de que a ciência poderia explicar tudo, superando assim o caráter religioso da sociedade.

[2] As Teorias Eugenistas derivam, em grande parte, de apropriações da obra de Charles Darwin, defendendo que existem raças diferentes entre os seres humanos, algumas mais desenvolvidas que outras, tomando como referencial o ideal de civilização imposto pelos europeus, criando assim o Racismo Científico, que também defendia que a reprodução entre raças humanas diferentes levava a “mestiços” geneticamente degenerados.

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. Algazarra nas Ruas: comemorações da Independência na Bahia (1889-1923). Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

SANTOS. Jocélio Teles dos. O Dono da Terra: o caboclo nos Candomblés da Bahia. Salvador: Sarah Letras, 1995.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.

BAHIA. Secretaria de Cultura. Fundação Pedro Calmon. 2 de Julho: a Bahia na independência nacional. Salvador, 2010.

KRAAY, Hendrik. Definindo nação e Estado: rituais cívicos na Bahia pós – Independência (1823-1850). Revista Topoi, Rio de Janeiro, v. 3, p.63-90, set. 2001.

MARTINEZ, Socorro Targino. 2 de Julho: a festa é história. Salvador: Selo Editorial da Fundação Gregório de Mattos, 2000.

REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia da Letras, 1989.

TAVARES, Luis Henrique Dias. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005

Extraído de Os Heróis do Brasil


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