Um retrato de D. Maria I, uma notável rainha louca

Um retrato de D. Maria I, uma notável rainha louca

Um retrato de D. Maria I, uma notável rainha louca

Recai sobre D. Maria I a alcunha de louca. Rainha de Portugal num período conturbado, ela sucumbiu diante das pressões e lutas pelo poder entre Igreja e Estado.

Quando naquela manhã de inverno de 1792 o céu se iluminou, a tensão no palácio real de Salvaterra era tremenda. Ninguém tinha dormido nessa noite. As brasas ainda estavam quentes, os candeeiros faziam sombras nas paredes e um grupo de médicos falava em voz baixa com um agitado jovem de vinte e quatro anos. D. João de Bragança, príncipe herdeiro de Portugal, sentia-se totalmente inútil. Era já um jovem indeciso nos seus melhores dias, mas, neste momento, não tinha qualquer ideia do que havia de fazer numa situação assaz singular.

Na véspera, a rainha em exercício – sua mãe – tinha ensandecido durante a representação de uma peça no teatro do palácio. Guinchara e uivara durante toda a noite, andando em passadas largas, enquanto puxava os cabelos e os vestidos, gritando de medo e aflição. Os seus criados rodeavam-na. Tentavam acalmá-la o melhor que sabiam. Estavam porém aterrorizados com a mera hipótese de tocar na rainha e ofender o protocolo real.

A manhã despontava enevoada e cinzenta. Tinha chovido durante vários dias e a umidade entranhara-se nos quartos do palácio. Os criados, atarefados nos apartamentos, empacotavam os vestidos reais, preparando-se para levar a rainha para o seu palácio, em Lisboa. No rio, o Bergantim Real fora limpo e polido, com o dragão dourado da proa a brilhar através da chuva miudinha dessa manhã. Os lacaios tinham preparado a cabina dourada com tapetes e almofadas de veludo encarnado e oitenta remadores apresentavam-se vestidos de libré vermelha e amarela. Uma refeição ligeira – uma merenda – foi preparada nas cozinhas e levada para bordo, com travessas de comida requintadamente preparadas, bem como garrafões de água mineral, vinho e limonada.

  1. Maria só foi trazida do palácio quando tudo ficou pronto, sendo logo ladeada pelas suas duas irmãs, que a seguravam pelos braços, e seguida pelo seu filho com uma expressão de desespero no rosto. Debaixo de um pálio erguido sobre a sua cabeça, para a proteger da chuva, foi conduzida para a margem do rio e sentada nas almofadas de veludo da cabina. Os barqueiros mergulharam os remos na água e o bergantim moveu-se lentamente ao longo do rio Tejo.

A viagem até Lisboa levou várias horas. Quando o Bergantim Real chegou à cidade, a grande praça, junto ao rio, estava cheia de populares que tinham ouvido rumores sobre a «indisposição» da rainha e procuravam ver a sua soberana. Assim que o bergantim atracou, foram levantados quarenta remos na vertical, e a mulher enlouquecida levada para um coche e transportada através da praça para o Senado da Câmara. Algum tempo depois, a sua face pálida apareceu numa janela que dava para a praça, sendo recebida com vivas da multidão que ali a esperava.

Na noite seguinte, a gravidade do seu estado foi finalmente anunciada à nação. Os sinos tocaram, imagens sagradas foram trazidas para os seus apartamentos, procissões religiosas atravessaram as ruas. Preces «pela preciosa saúde de Sua Majestade» foram entoadas noite e dia em todas as igrejas e conventos da cidade. Mas, como a própria rainha dissera um dia, nem médicos nem padres podiam inverter os decretos do destino.

ROBERTS, Jenifer. D. Maria I: A vida notável de uma rainha louca. São Paulo: Casa das Letras, 2009.

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