Um presidente temeroso e os sabujos aduladores

Um presidente temeroso e os sabujos aduladores

Um presidente temeroso e os sabujos aduladores – Foto: Beto Barata/PR

Encaixe perfeito se deu no programa Roda Viva, da TV Cultura: um presidente temeroso, sabedor de sua baixíssima popularidade, e um séquito sabujos aduladores.

Michel Temer não precisa de nada além de jornalistas o cercando como cães perdigueiros que lhe lambam a mão. Jamais se sentirá acossado quando, numa roda de amigos, somente lhe farão perguntas agradáveis e que não lhe trarão nenhum incômodo ao responder.

Foi assim no Roda Viva, programa da TV Cultura, que costumava levar personalidades para serem inquiridas por jornalistas. O que se viu desta feita foi um bate-papo de boteco em que o convidado Michel Temer se sentiu profundamente tranquilo para responder ao que já esperava ser questionado.

Nenhuma pergunta sobre o Eduardo Cunha. Nenhum questionamento sobre o governo golpista, formado em sua maioria por políticos investigados ou citados na Lava Jato. Nenhuma mísera consideração sobre os bastidores do impeachment, aquela peça burlesca e de mau gosto.

Michel Temer foi ao programa para ser cortejado, bajulado e, na melhor das hipóteses, para propagandear o seu Brasil desmontado, reduzido a nada. Foi receber dos chapas-brancas um apoio sincero pelas graças prestadas aos tradicionais grupos de mídia que receberam gordas verbas de publicidade com a ascensão do governo ilegítimo.

A velha mídia precisa agradecer aos serviços prestados por Sua Excelência.

 O que vai se apresentando, entretanto, é a outra face de um jornalismo que outrora massacrou o PT; pois desapareceram do noticiário as palavras-tendências como crise e corrupção. É um jornalismo prestimoso que se esforça a dar boas notícias quando elas não existem.

A síntese da relação entre Temer e a mídia é a alteração do lugar de fala do ex-vice decorativo: Temer precisava, além de se distanciar de Dilma, imprimir um projeto de governo totalmente divergente do da era petista. Este projeto de redução do Estado, de neoliberalismo massacrante, de apoio incondicional aos entes do mercado e do capitalismo foi adotado como forma de distanciamento da esquerda e aproximação dos setores hegemônicos da sociedade como grande mídia e elite.

Por isso, os jornalistas estavam tão à vontade com o Temer. Falavam de igual para igual, sem distinção e até mesmo com uma ponta de otimismo. A posição de Temer, entretanto, não influencia em sua popularidade. Quando fala à mídia e às elites, deixa de falar com as classes que podem demover um governo: os trabalhadores.

Temeroso, o peemedebista não dialoga além da esfera midiática de bem-estar. Fora disso – e sem os sabujos a lhe lamberem a mão – ele não passa de um vulto inconsistente no imaginário popular. Para não dizer que, desprestigiado, jamais será considerado um presidente. Quando muito um usurpador.


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