Operação Condor: A aliança da repressão

Operação Condor: A aliança da repressão

Operação Condor: A aliança da repressão – Foto: Latuff

Ditadores do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia formaram uma coalizão para reprimir adversários dos seus regimes.

A Operação Condor foi uma articulação multinacional do terror das ditaduras militares do Cone Sul das Américas, ou seja, entre as forças de repressão do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia para o sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento de opositores às ditaduras militares. Dela participaram ditadores, comandantes militares e agentes civis do Brasil, Uruguai, Chile, Argentina, Bolívia e Paraguai.

Na verdade, “o trabalho de cooperação” entre as “forças de segurança” brasileiras e uruguaias teve início na segunda metade da década de 60, quando policiais brasileiros atuavam livremente em território uruguaio, inclusive, no Aeroporto de Carrasco em Montevidéu, onde imperava a CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos). Esta era a Operação Pré-Condor.

A Operação Condor torna-se uma triste realidade depois do Golpe de Estado no Chile, chefiado pelo general Augusto Pinochet, muito bem assessorado pelo então Secretário de Estado Norte-Americano Henry Kissinger (criminoso de guerra). Kissinger foi um dos responsáveis pela derrubada e morte do presidente Salvador Allende e pela Operação Condor. A partir daí começaram os sequestros, tortura, assassinatos e desaparecimentos de opositores às ditaduras na região sul do continente latino-americano.

A Operação Condor teve também como objetivo facilitar ainda mais as ações criminosas dos Estados Unidos através da CIA (covil de torturadores criminosos, assassinos, informantes, contrabandistas e mafiosos). Quantias fabulosas foram enviadas para promover, sustentar o terrorismo de Estado em toda a América Latina.

Não foi por acaso que Pinochet e outros ditadores enriqueceram rapidamente. Pinochet, que ocupou ilegalmente o poder por l7 anos, foi detentor de 125 contas bancárias em valores que ultrapassavam 13 milhões de dólares.

Até nos Estados Unidos, país que foi o principal responsável pelos golpes de Estado no Brasil, Uruguai, Chile, Argentina e pela sustentação por décadas do ditador Alfredo Strossner no Paraguai, a Operação Condor deixou sua marca -o assassinato do ex-Ministro das Relações Exteriores do Chile, Orlando Letelier e sua secretária na capital Washington.

A participação da ditadura militar brasileira no golpe de Estado no Chile foi de tal forma que a diplomacia brasileira era considerada como quinto integrante da Junta Militar, denunciou o defensor dos Direitos Humanos no Rio Grande do Sul, Jair Krischke

Após o golpe de Estado, refugiados políticos brasileiros e de outras nacionalidades foram presos e conduzidos para o Estádio Nacional de Santiago. Os brasileiros eram interrogados e torturados por policiais brasileiros.

Em 6 de dezembro de l974, Jane Vanini foi assassinada na cidade de Concepción, horas depois de ter sido presa. Esse episódio foi reconstituído pela justiça chilena em dezembro de 2007. Também cinco brasileiros mortos no período do golpe: Túlio Roberto Cardoso Quintiliano, Luís Carlos Almeida (preso em sua casa e assassinado em uma ponte sobre o rio Mapucho), Nélson de Souza Kohl (desaparecido), Antenor Machado dos Santos, Wânio José Matos (morto sob tortura no Estádio Nacional). Estas informações foram prestadas pelo embaixador chileno, Álvaro Diaz em entrevista à Revista Carta Capital, quando informou também sobre as providências adotadas no Chile para responsabilizar os agentes da repressão com o objetivo de consolidar a democracia.

Em Buenos Aires, foram assassinados, entre outros, o general Carlos Pratts, que fora leal ao presidente Salvador Allende, e o general boliviano Juan Torres. Os dois foram assassinados por agentes da Operação Condor.

Outra vítima da Operação condor foi o major do Exército brasileiro, Joaquim Cerveira, que residia na Argentina como exilado político. Cerveira foi sequestrado em Buenos Aires e está desaparecido até hoje.

O senador uruguaio, Zelman Michelini foi sequestrado em Buenos Aires por agentes uruguaios integrantes da Operação Condor. Seu corpo foi encontrado boiando no Rio da Prata.

Em consequência da Operação Condor e do aumento da repressão interna na região sul do continente, milhares de argentinos, chilenos, brasileiros, uruguaios e paraguaios foram cruelmente torturados e assassinados e milhares estão desaparecidos.

David Capistrano, Onofre Pinto, Joel e Daniel Carvalho e o jovem argentino Ruggie tiveram o mesmo destino, vítimas de ações coordenadas da Operação Condor e de militares da repressão interna.

Segundo informações bem recentes publicadas no Jornal Opção, no Estado de Goiás, contidas no livro de Taís Morais e baseadas no depoimento do agente secreto do CIE (Centro de Informações do Exército), Ivan Carioca, traz mais informações sobre o que aconteceu com David Capistrano.

Com o título David Capistrano é o Tiradentes comunista, o Jornal Opção escreve que o dirigente David Capistrano foi preso no Rio Grande do Sul e esquartejado na Casa de Petrópolis.

“Depois de destruir a esquerda armada, tanto a Ação Libertadora Nacional de Carlos Marighela quanto o PC do B de Maurício Grabois e o Molipo de José Dirceu, as forças repressivas voltaram-se para o velho e moderado Partido Comunista Brasileiro (PCB), conhecido como Partidão, (hoje PPS). Um de seus presos e desaparecidos mais conhecidos é o lendário David Capistrano da Costa, que participou da Guerra Civil Espanhola (l936-1939), ao lado dos republicanos. Exilado na Tchecoslováquia, retornou ao Brasil, via Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.”

“Em 13 de março de 1974, David Capistrano e um companheiro foram presos. Ivan Carioca foi um dos agentes secretos do CIE enviados a Porto Alegre para levá-lo para São Paulo e entregá-lo à Operação Bandeirantes. Depois o agente recebeu ordens de encaminhá-lo para a famosa Casa de Petrópolis, de onde era difícil sair vivo”.

A reportagem do Jornal Opção, assinada pelo jornalista Euler França Belém, informa, com base no livro de Taís as terríveis torturas a que foi submetido David Capistrano, que o próprio agente Ivan Carioca chegou a perder o fôlego. Era sangue por todo o lado, impregnando o ambiente, com aquela textura pegajosa do processo de coagulação. O líquido formava pequenas poças no chão, mas sem sinal de um corpo humano íntegro. Cheiro de carne e vísceras. Morte recente. Sabia distinguir muito bem. Afinal, onde estava o preso submetido à tamanha ferocidade? Chocado, sem articular uma só palavra, o estômago embrulhado, percebeu que as partes, amontoadas num canto, estavam a ponto de serem colocadas em sacos plásticos. Lentamente, levantou a cabeça em direção a algo pendurado em ganchos. A princípio não distinguiu bem o que era . Um tronco, dividido ao meio. As costelas de Capistrano pendiam do teto, e ele, reduzido a pedaços como se fosse uma carcaça de animal abatido, pronta para o açougue. Não pôde evitar a imediata associação com uma câmara frigorífica, mas expondo um ser humano.

Se um agente secreto da ditadura chegou a passar mal ao ver as atrocidades cometidas por agentes da ditadura, pode-se muito imaginar o que poderá sentir uma pessoa comum ou familiares da vítima e que para piorar ainda mais o sofrimento de todos ainda desaparecem covardemente com os corpos.

O escritor Agassiz Almeida no seu livro “A Ditadura dos Generais”, que eu recomendo a todos os interessados em saber o que aconteceu durante as ditaduras nazi-militaristas na região sul do continente latino-americano, afirma que o que aconteceu no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina foi pior que durante o regime nazista na Alemanha de Adolf Hitler.

Os soldados e oficiais nazistas de Hitler não usavam capuz, não tinham nomes trocados, como, por exemplo, o coronel Carlos Alberto Ulstra, que usava o codinome dr.Tibiriçá, e não atuavam nos subterrâneos. Os integrantes da SS de Hitler acreditavam, equivocadamente, na superioridade da raça ariana. O coronel Ulstra está sendo processado pela família Teles e pela família do jornalista Eduardo Merlino.

Segundo o escritor, os agentes da ditadura sabiam que estavam cometendo crimes hediondos não prescritíveis. “Por isso, nenhum torturador ou genocida assume a sua ação, mesmo sob o amparo do Estado. Por quê? Ninguém quer ser autor de crimes abjetos e covardes que nem mesmo o nazismo praticou. É delito de lesa-humanidade”.

Para o escritor, isto representa um pesado desgaste para as Forças Armadas por longas décadas. “O Estado militar absolutista, sequestrador, torturador, exterminador, genocida, responsável por inúmeros desaparecidos (ato institucionalizado pelo Estado) é pioneiro macabro na História da Humanidade. Revolvam-se as páginas da História Universal, desde o fundo dos séculos, e neles não se encontram tão hediondo tipo criminoso”.

Em 1976, de 21 países da América Latina, 14 tinham governos militares. 2/3 da população viviam sob truculentas ditaduras militares.

A violência e a crueldade das forças repressivas deixaram atordoada a consciência da humanidade, ultrapassando em bestialidade, não em número de mortos, até o próprio nazismo. O nazismo desconhece esta tipologia criminosa, escreve Agassiz Almeida.

“No Chile, o general Sergio Arellano Stark arrancava das prisões centenas de presos, executava-os sinistramente e escondia os corpos”.

Que tipos deformados governaram a América Latina no século XX. Devastação e rastro de sangue, destacadamente nos países sob a sombria ação da Operação Condor.

O que aconteceu com Capistrano foi o mesmo que aconteceu com o líder sindical de verdade Itair Veloso, segundo depoimento do sargento do Exército, Marival Chaves que integrou as forças de repressão da ditadura. Foi o presidente Ernesto Geisel que mandou matar membros da direção do PCB. 16 membros da direção do PCB, inclusive, o ex-deputado estadual pelo Rio de Janeiro, João Massena, Elson Costa, Luiz Maranhão, Hiran Lima, e outros.

No Brasil, as instalações militares no DOI-CODI, Operação Bandeirantes e o quartel da Polícia do Exército na Rua Barão de Mesquita eram os centros de tortura mais conhecidos, além da Casa dos Horrores em Petrópolis. Foi no quartel da Polícia do Exército que Mário Alves e Rubens Paiva foram torturados até a morte.

A Escola Superior de Mecânica da Marinha Argentina foi também um terrível centro de tortura, onde atuava o capitão playboy, Alfredo Astiz, responsável pelo assassinato e desaparecimento da jovem sueca Dagmar Hagelin, presa em 27 de janeiro, quando ia visitar uma amiga num bairro da capital Buenos Aires, no dia 27 de janeiro de l977. Astiz também é o responsável pelo assassinato de duas freiras francesas, ele já está preso por crimes de lesa-humanidade.

As crueldades do capitão Alfredo Astiz tornaram-se até conhecidas no exterior. Em discurso pronunciado no Parlamento britânico, Sir Winston Churchill, neto do ex-Premier Winston Churchill chegou a mencionar Astiz como o açougueiro de Buenos Aires.

As atrocidades de Astiz contra presos políticos na Argentina foram confirmadas por Claudio Vallejos, “torturador arrependido”, em depoimento no Consulado da Suécia no Rio de Janeiro, Vallejos afirmou, nessa ocasião, que participou do sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento da jovem sueca, Dagmar Hagelin, presa no dia 27 de janeiro de l977, com apenas l7 anos de idade, quando ia visitar uma amiga, num bairro da capital argentina. Vallejos confessou que participou da prisão, tortura e assassinato de, pelo menos, 40 pessoas durante a Guerra Suja e que o chefe do grupo era o capitão Alfredo Astiz.

Vallejos denunciou, também, o assassinato do pianista do Vinícius de Morais, Luiz Tenório, que desapareceu após ser preso por uma patrulha no centro de Buenos Aires, chefiada pelo capitão Alfredo Astiz. O pior é que segundo Vallejos, o sinal verde para a eliminação de Tenorinho, foi dado pelo SNI, ou seja, por um oficial do Exército Brasileiro e pelo então Secretário da Embaixada do Brasil, em Buenos Aires, Sérgio Cortes, filho do general Menezes Cortes e que, logo depois, foi transferido para servir na Embaixada Brasileira na Austrália. As declarações de Cláudio Vallejos foram feitas no Consulado Sueco em troca de asilo político na Suécia, o que foi negado pelo governo do Primeiro Ministro Sueco na Olof Palme. As denúncias de Vallejos foram publicadas no Jornal vespertino de Estocolmo, Aftonbladet (Folha da Tarde).

Esses fatos comprovam as afirmações feitas recentemente pelo defensor dos Direitos Humanos no Rio Grande do Sul, Jair Krischke em seminários organizados por anistiados e ex-presos políticos da Associação de Anistiados, Aposentados e Idosos do Estado de São Paulo (ANAPI) e pelo Fórum de Ex-Presos Políticos de São Paulo, quando denunciou os envolvimentos de diplomatas brasileiros com a Operação Condor, citando inclusive o papel destacado do embaixador Pio Corrêa na Embaixada brasileira em Montevidéu. Segundo Jair, Pio Corrêa está aposentado e reside atualmente na cidade do Rio de Janeiro.

Outro local de maior movimentação de torturas e mortes, na Argentina, foi o de Automotores Orletti, situado no centro da capital Buenos Aires. Ali se realizava um trabalho de conexão entre os exércitos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, segundo o escritor Agassiz Almeida. “Outro centro de extermínio, o “Vesúbio”, no Distrito de Matanzas, Província de Buenos Aires. Grande parte da operosidade do plano de “extermínio” efetuava-se neste centro, de onde os presos eram transportados às bases de Palomar e Morón para serem lançados no Oceano Atlântico”.

No Brasil, o local de embarque para o lançamento ao mar de presos vindos de vários centros de tortura de São Paulo e Rio de Janeiro – os chamados vôos da morte – era Base Aérea do Galeão, situada ao lado do Aeroporto Internacional, hoje, Antônio Carlos Jobim, sob a chefia do brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, denunciou Jair Krischke.

Foi este brigadeiro que tinha o plano diabólico de explodir o Gasômetro na cidade do Rio de Janeiro, para colocar a culpa nos comunistas e provocar um banho de sangue. O plano fracassou devido ás denúncias do capitão Sérgio Macaco, que acabou sendo expulso da Aeronáutica.

Foi na Base Aérea do Galeão, onde foi assassinado Stuart Angel, no dia l4 de janeiro de 1971. Seus torturadores o arrastaram, com a boca presa no cano de descarga de um jipe, por toda a Base. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel foi incansável na denúncia de seu assassinato e apontou como responsáveis, os brigadeiros João Paulo Moreira Burnier e Carlos Afonso Alcântara, o tenete-coronel Muiz, o capitão Lúcio Barros e o major Pena, todos da Aeronáutica. Além desses, Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota, agentes do DOPS/RJ.

Todos os torturadores, apontados por sua mãe, recebem, até hoje, dos cofres públicos a “bolsa ditadura” e nenhum deles foi sequer punido nas suas corporações, denunciou a advogada e ex-presa política, Ana Muller.

Devido ás denúncias, sua mãe, Zuzu Angel, acabou sendo assassinada por agentes do Serviço Secreto da Ditadura Militar.

Extraído de: Inverta – Voz Operária, de Délson Plácido.

1 Comentário

Escreva um comentário