O Império confiscou doações à Nª Sª de Aparecida

O Império confiscou doações à Nª Sª de Aparecida

O Império confiscou doações à Nª Sª de Aparecida – Foto: Eduardo Saraiva/A2IMG

Atolado em dívidas, Dom João VI pôs aliados políticos em frentes às igrejas da colônia para confiscar as doações; chegando ao Brasil impôs novo confisco.

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Império confisca doações

O primeiro a se apropriar dos cofres divinos foi o príncipe regente Dom João VI, afundado em dívidas com a Inglaterra. Portugal pôs aliados políticos à frente de igrejas e capelas da Colônia, até então comandadas por padres. Em 1805, dom João ordenou o primeiro confisco, antes mesmo de aportar no Brasil. Quatro anos depois, quando já estava alojado no Rio, ele apelou novamente para a doação dos romeiros.

Na Vila de Guaratinguetá, onde ficava a primeira igreja de Aparecida, o emissário do Império era Jerônimo Francisco Guimarães. Em mais de 20 anos, ele acumulou três cargos: era prefeito, esmoleiro — o responsável por receber as doações — e tesoureiro, aquele que deveria cuidar das terras, casas, escravos e do cofre da diocese. As eleições fraudadas perpetuaram o seu poder e permitiram que comprasse uma das maiores mansões da região.

— Aparecida e seus milagres eram conhecidos há décadas. Sua localização também contribuiu para aumentar a fama da santa. Ela estava à beira da Estrada Real, que ligava o Rio às minas de ouro. Mesmo longe das grandes cidades, a santa estava no caminho do poder — lembra Alvarez. — E, ainda que tivesse acumulado popularidade, o século XIX foi, para ela, um período das trevas. O Império afastou os padres e deixou a diocese na mão dos civis, que se aproveitaram da imagem positiva da santa para ganhar projeção política.

Até João VI, o idealizador dos saques, foi enganado por seu pupilo. A arrecadação real minguou quando Jerônimo aperfeiçoou suas técnicas de desvio das arrecadações endereçadas a Aparecida. Um de seus truques era bloquear a caixa de doações, obrigando os romeiros a deixarem dinheiro à vista. Em seguida, um funcionário da capela guardava tudo no bolso. O caixa dois já dava as caras no Brasil.

Jerônimo acumulou tanto poder que só entregou a chave da igreja e do cofre um ano e meio depois de ser demitido pelo imperador Dom Pedro I. Os motivos da demissão, em 1824, não são claros. Sem pôr a mão nas doações de romeiros, ele foi obrigado a vender sua mansão.

A decadência de Jerônimo não inibiu seus sucessores, que seguiram o mesmo caminho. A Coroa criou uma Mesa Administradora para a igreja, sempre composta por um tesoureiro, um escrivão — ambos nomeados por padrinhos políticos — e um padre. O religioso era tão impotente que, em todos os documentos, seu nome era seguido pela inscrição “voto vencido”.

— Durante quarenta anos, até 1884, a Mesa teve 25 tesoureiros — destaca Alvarez. — Nove duraram poucos meses no cargo. Essa rotatividade estava ligada a indicações políticas, principalmente de senadores provinciais. Eram cargos muito cobiçados, eles se sentiam livres para agir como quisessem.

Entre os ocupantes estava um Antônio Theodósio, que se notabilizou na vila por roubar até a cera da vela dos romeiros. Antes um humilde professor, ele era rico quando deixou seu cargo.

No entanto, talvez o caso mais escandaloso tenha sido o de Joaquim Carlos Fragoso. Ele ganhou o comando da igreja depois que um influente político de Guaratinguetá disse ao juiz da vila que trocaria de partido se Fragoso, a quem devia dinheiro, não fosse nomeado tesoureiro.

Além de vender as doações de romeiros a comerciantes locais, Fragoso usou o dinheiro dos fiéis para construir encanamentos e desviar a água, destinada à igreja, para as casas de seus aliados.

O desvio de recursos comprometeu a formação de novos religiosos.

— O seminário local ficou vazio, porque o Império deixou de financiá-lo. Em muitas igrejas, como em Aparecida, sobraram apenas um ou dois padres — denuncia Alvarez. — Foi preciso trazer 13 padres da Alemanha, e eles choraram quando viram o estado da igreja.

A diocese da santa arrecadava cerca de 40 contos de réis, mas apenas dois eram destinados à obra da basílica, que começou em 1845 e se arrastou por 43 anos. Só para construir a primeira torre foram necessários 14 anos. Os empreiteiros logo desistiam da obra, porque não eram pagos.

A única figura imperial que não virou as costas para Aparecida foi a princesa Isabel. Católica devota, ela visitou a santa em 1868 e a presenteou com uma coroa com 300 gramas de ouro e 40 diamantes. Isabel nunca recebeu o mesmo presente. Em 1889, a Proclamação da República levou-a para o exílio em Paris.

Na mesma época, a santa presenciou um milagre — sua basílica finalmente ficou pronta. A façanha só foi possível com a intervenção da figura quixotesca de Dom Joaquim do Monte Carmelo. O religioso denunciou os tesoureiros corruptos na imprensa, pediu empréstimos de negociantes e freiras, vendeu sua chácara para pagar tijolos e mármore e discutiu com bispos e juízes até concluir os trabalhos.

A república ‘salvadora’

Mas a melhor notícia para Aparecida foi a derrubada do Império. Ao contrário da família real, a República não demonstrou interesse em administrar os santuários ou entregá-los a grupos políticos. O primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, publicou um decreto separando a Igreja do Estado.

— A República foi considerada a salvação da basílica — avalia Alvarez. — O regime queria se mostrar afinado com os anseios do povo. Por isso, Aparecida foi coroada padroeira do Brasil em 1904.

Desde então, diversos presidentes ergueram a escultura, a ditadura militar levou-a para passear em uma peregrinação nacional — entre 1966 e 1968, ela percorreu 45 mil quilômetros em 508 dias de viagem — e, em 1980, a santa ganhou uma basílica nova. Três papas beijaram seus pés, um gesto que nasceu no século XVIII. Depois de João Paulo II e Bento XVI, veio Francisco, em junho do ano passado. Inicialmente, o pontífice deveria visitar apenas o Rio. No entanto, preferiu esticar a viagem em um dia para ir ao interior paulista e conhecer a santa brasileira.

Da exploração de sua imagem à aclamação popular, da negligência imperial à cessão de uma coroa de diamantes, Aparecida trilhou um caminho tão torto como seu molde de barro. Prestes a completar seu tricentenário, a santa livrou-se de tesoureiros corruptos e viu padres deixarem de ser “votos vencidos” em documentos sobre seu patrimônio. A cobiçada santa feia e sem cabeça viveu o que seus fiéis brasileiros ainda vivem.

Extraído de O Globo de 11.10.2014


1 Comentário

  • A cobiça humana se perpétua nos milênios desde existência da humanidade e isto é fato é não argumento
    A igreja católica durante os 3 séculosemanas da Santa inquisição perpetuou também crimes de usura e ganância sequestrando bens de ditos infiéis em geral judeus europeus sefar ditas na Europa e no Brasil idem

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