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Dom João VI: Entre frangos, torradas e penicos

Dom João VI: Entre frangos, torradas e penicos
Dom João VI: Entre frangos, torradas e penicos – Foto: Semplício Rodrigues de Sá
Feio, baixo e barrigudo, mas acima de tudo despreparado para o cargo, Dom João VI era filho de D. Pedro III e D. Maria I. Foi rei de Portugal de 1792 a 1826.

Acordava às 6h, vestia-se com a ajuda de seu camareiro, Matias Lobato, o visconde de Magé, e ia rezar no oratório. Comia frangos com torradas durante as audiências matinais, nas quais recebia os fidalgos mais íntimos e os serviçais da corte. Seu interlocutor mais frequente era Viana, o intendente geral da polícia, recebido três vezes por dia para discutir melhorias urbanas e problemas de segurança no Rio de Janeiro. As refeições principais eram feitas junto com os filhos. Na sobremesa, havia sempre a pequena cerimônia conhecida como o “lava-mãos”: o príncipe D. Pedro, filho mais velho, segurava uma bacia de prata, enquanto o mais novo, D. Miguel, despejava água para que D. João lavasse as mãos sujas de gordura. Depois do almoço, o rei dormia uma ou duas horas e, no final da tarde, saia para passear, às vezes dirigindo ele próprio uma pequena carruagem puxada por mulas.

Dom João VI em retrato de Jean-Baptiste Debret
Dom João VI em retrato de Jean-Baptiste Debret

O historiador Tobias Monteiro acrescenta um detalhe pitoresco nesses passeios: o ritual que envolvia as necessidades fisiológicas do rei. Segundo ele, à frente da comitiva ia um moço de cavalariça, a que o povo chamava de “toma largas” – talvez porque abria espaço à passagem do rei ou por usar vestimentas de abas enormes. Esse vassalo montava uma besta, de cuja sela pendia dois alforjes. Num ia à merenda de D. João VI. No outro, um penico e uma armação composta de três peças que funcionava como um vaso sanitário portátil para ser usado em campo aberto. A certa altura do passeio, o rei murmurava algum ordem, o moço descia da mula e montava o equipamento. “Então”, acrescenta o historiador, “o rei descia da carruagem e dele aproximava-se o camarista, que lhe desabotoava e arriava os calções. Diante dos oficiais e outras pessoas da comitiva, até da princesa Maria Teresa, sua filha predileta, quando esta a acompanhava, sentava-se beatamente, como se ninguém lhe e estivesse em torno. Satisfeito o seu desejo, vinha um criado particular limpá-lo e de novo chegava o camarista para ajudá-lo a se vestir.

Cumprida essa etapa, D. João retomava o passeio, até chegar a hora da merenda. Além da comida guardada no alforje do moço da cavalariça, o rei levava também um estoque extra de galinhas assadas e desossadas. Guardava os pedaços na algibeira do seu casacão encardido e ia comendo enquanto contemplava a paisagem ou parava para conversar com as pessoas que o saudavam pelo caminho. À noite, recebia seus súditos para o beija-mão. Ia se deitar por volta das 23h.

Tobias Barreto tem mais informação curiosa a respeito da intimidade do rei. Ele conta que os quartos do Palácio de São Cristovão se abriam para uma varanda. D. João VI dormia sozinho num deles. Numa sala contígua, que dava para o interior do edifício, costumava receber visitas e despachar com ministros e oficiais do governo. Como essa sala de reuniões era o único acesso ao quarto do rei, os criados do palácio também tinham de passar por ela quando, pela manhã, precisavam esvaziar os penicos usados durante a noite por D. João. Dependendo da hora, essa tarefa era executada enquanto o monarca recebia alguns de seus convidados. Para evitar constrangimentos, os vasos eram cobertos com uma tampa de madeira, emoldurada por uma pequena cortina de veludo encarnado. “Mas esse fechamento era imperfeito e deixava escapar os elementos voláteis, que denunciavam seu conteúdo, conta o indiscreto Monteiro.

Texto extraído do livro 1808, de Laurentino Gomes, p. 301/303.


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