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Deslizamentos em Salvador: de quem é a culpa?

Deslizamentos em Salvador: de quem é a culpa?
Deslizamentos em Salvador: de quem é a culpa? – Crédito: Exame/Abril

 

Deslizamentos em Salvador: de quem é a culpa?

Salvador-Ba – A presumível resposta da imprensa e da população de maneira geral é de que os deslizamentos são provocados quando construções inapropriadas ocupam territórios íngremes; a chuva, como fenômeno natural, e, portanto, isenta de culpabilidade, nos fazem aderir à palavra fatalidade. Mas não é a fatalidade a temática central desta discussão, embora ela esteja imbricada nos termos do debate. O poder público municipal desta que é a primeira capital do Brasil – historicamente e não como slogan simplório de prefeitura – não reconhece os mais pobres. Desde os tenebrosos períodos de João Henrique Carneiro até a nobiliárquica ascensão de ACM Neto, o sujeito mais humilde desta cidade continua como sempre esteve: à espera de salvação. Se não perece pela mão forte do sistema de “segurança pública”, definha diante de outras mazelas que a propaganda institucional esconde.

A topografia da capital baiana é acidentada. Desde os bairros próximos à orla até os suburbanos, a altitude dos morros e de suas ladeiras é constante. Nenhum soteropolitano, presume-se, deve conhecer a capital como os órgãos e secretarias da prefeitura. Eles são responsáveis por um mapeamento demográfico, geográfico e climático de todas as regiões da cidade. Sabem, ou ao menos deveriam saber, onde estão as áreas de risco, onde existem famílias morrendo de fome, onde o tráfico e a violência imperaram acima do Estado de Direito. A prefeitura deveria saber tanto quanto o governo do Estado, também omisso e preocupado com futilidades, que a vida humana corre riscos frequentes nesta selva de pedra. O que aconteceu nos últimos dias é grave e se repete ano após ano. A culpa vai ser sempre da chuva.

Houve um tempo em que pelo menos os prefeitos – ainda que de forma tímida – tomavam medidas preventivas para evitar a tragédia. Retirava-se as pessoas destas áreas para realocação ou isolava-se as ribanceiras com concreto. Hoje a tragédia serve apenas para mostrar que o discurso continua o mesmo. E não devemos esperar que ele se altere enquanto a manutenção deste sistema for a desculpa da fatalidade. Pessoas perderam vidas, mesmo vivas; outras as perderam para sempre. O vazio e o trauma para as pessoas que ficam é assustador. Não basta para a prefeitura aparecer nos telejornais como aquela que socorreu o desabrigado. É preciso muito mais do que isso para levantar a voz em discurso de superação, afinal, o mal ainda não foi superado. E paga-se por isso. Todos os anos morrem dezenas de pessoas e o silêncio da fatalidade nos faz baixar a cabeça.

As obras na orla da cidade são quilométricas. A Barra até mudou de nome. Agora é a nova Barra. A cidade das propagandas tem um ar de capital da tranquilidade. Basta uma chuva e as ruas estão alagadas. O povo repercute: as mídias sociais se enchem de memes que fazem alusão à debilidade de Salvador quando o clima é adverso. Mas não é qualquer debilidade não. A cidade de Salvador, capital da Bahia – a exemplo de outras capitais – afunda em rios ferozes quando chove. A imagem [clique aqui] de passageiros salvos sobre o teto do ônibus não nos deixa mentir. A culpa não é apenas do poder público. Os cidadãos costumam jogar lixo na rua como se fosse a mais natural e instintiva atitude humana. Não é. Os resultados são catastróficos. Basta a chuva ultrapassar os níveis esperados pelos meteorologistas, assim como aconteceu.

A consternação coletiva ao ver uma senhora dizer que perdeu muitos amigos no deslizamento é um dos motivos pelos quais devemos pedir mais agilidade do poder público. Enquanto Salvador é a cidade do sol e do verão, suas águas brilham, suas encostas ardem num verde luminoso, não há de se esperar muito por decisões benéficas para os habitantes das encostas. Mas basta cair um temporal para decretarem mortes e retirarem da memória o trágico discurso  da fatalidade. Há 19 anos ocorreu um deslizamento como este na localidade do Barro Branco, Avenida San Martin. Em quase duas décadas nada foi feito. E nesta data horrenda, dezenove anos depois, um rapaz de dezesseis perdeu a vida. Que aspirações tinha? O que esperava da vida? Que profissão desejava exercer? Seu nome era Roberto Ubiratan Santos Junior. Cuidemos para que não seja mais uma estatística das chuvas fatais de abril.

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